Os Impactos Emocionais do Acolhimento em SAICA
Os Impactos Emocionais do Acolhimento em SAICA
O momento do acolhimento é marcado pelo rompimento dos laços familiares iniciais. Mesmo que o ambiente familiar anterior não fosse saudável, essa separação gera uma série de reações emocionais intensas. Essa ruptura pode causar um grande estresse, afetando desenvolvimento social e emocional de crianças e adolescentes.
O sentimento de saudade da família de origem é muito comum, mesmo em casos de negligência. A criança ou adolescente precisa lidar com a insegurança sobre o futuro e a incerteza sobre a possibilidade de um dia voltar para casa. A mudança repentina de ambiente, a necessidade de se adaptar a novas regras e pessoas, e a própria história de vida, colocam o acolhido em um estado de grande estresse. Isso os torna mais vulneráveis a desenvolver dificuldades emocionais e comportamentais. O acolhimento é um processo de luto. Há a perda do cotidiano conhecido, dos objetos, dos amigos e, principalmente, da referência familiar. É um trabalho de elaboração emocional complexo e doloroso.
Embora o SAICA seja uma medida provisória, a complexidade da particularidade de cada caso e a dificuldade em encontrar uma família substituta ou reintegrar a família de origem levam muitos acolhidos à longa permanência. Este cenário é particularmente delicado para aqueles que não possuem uma família de referência apta ou disponível.
A permanência prolongada em instituições é um fator de risco que pode prejudicar o desenvolvimento integral, incluindo a saúde física, mental e o processo de socialização. A falta de uma história familiar contínua e de modelos de referência pode dificultar a construção de uma identidade sólida e a sensação de pertencimento. Apesar de o SAICA promover a convivência social, a falta de experiências típicas do ambiente familiar pode criar lacunas no desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais essenciais para a vida adulta. O histórico de vida e a própria situação de acolhimento podem aumentar a incidência de impactos na saúde mental, exigindo um acompanhamento intensivo e especializado.
É neste contexto de vulnerabilidade que a equipe multidisciplinar do SAICA (assistentes sociais, pedagogos, cuidadores e psicólogos) atua como uma referência de suporte. O objetivo é minimizar o sofrimento e promover o desenvolvimento integral. Criar um espaço seguro para que o acolhido possa expressar seus sentimentos, medos e expectativas. O trabalho é focado no fortalecimento de novos laços afetivos e na minimização do impacto da separação. Auxiliando o acolhido a compreender e processar sua história, incluindo as experiências de violência ou negligência, e o luto pela perda do convívio familiar. Ensinando e estimulando o uso de formas saudáveis de lidar com o estresse e as dificuldades do cotidiano, promovendo a resiliência. Bem como, quando possível, o atuamos na preparação e acompanhamento do retorno familiar, trabalhando as inseguranças e expectativas de todos os envolvidos.
O trabalho realizado no SAICA é complexo e vital. Ele não apenas garante a proteção física, mas também se empenha na reconstrução emocional e social de crianças e adolescentes. A atuação da equipe multidisciplinar é um guia para esses jovens através da separação, oferecendo ferramentas para que eles possam reescrever suas histórias com mais força e novas possibilidades.
Cauê Brigante
Psicólogo de Bethel Casas Lares